“Adianta ter um Porsche e escutar música de mano?”

Escrevo estas palavras com imenso pesar sobre os rumos da Política Cultural de Campinas. Ao mesmo tempo, me sentindo profundamente ofendido e indignado.

Recebi a pouco, pelo WhatsApp, uma mensagem entregue por uma pessoa não identificada. Na mensagem, uma gravação de um suposto Story do Instagram da atual Secretária de Cultura e Turismo de Campinas, Alexandra Caprioli. Segue abaixo.

Alexandra Caprioli, como o sobrenome indica, é empresária do ramo de transportes, muito conhecida em Campinas. Junto com o vídeo, uma mensagem afirmando que o Porsche foi um presente para o filho.

Fico pensando o que faz uma pessoa que possui recursos para presentear o filho com um Porsche querer ser Secretária de Cultura e Turismo. Segundo o Google, o Porsche marcado no Story (modelo Taycan) custa R$ 615 mil.

“O Rio de Janeiro é Corte,
São Paulo é capitá,
Campinas o purgatório
Onde os negro vão pena.”

A Cidade Colonial, Nelson Omegna

O Brasil possui hoje mais de 14 milhões de desempregados. Enquanto escrevo este post, ouço barulhos na caçamba que está na rua. Não estão procurando latinhas. Estão em busca de restos de comida.

Campinas atravessou toda a pandemia sem fazer um único Lockdown. Perdi um familiar em uma maca de um Pronto Atendimento no começo do ano, em um momento em que haviam mais de 200 pessoas na fila por leito.

Nosso atual prefeito Dario Saadi (Republicanos), médico, não teve a coragem necessária para contrariar a sede por lucros do empresariado local.

Sim, Campinas, a cidade que registra trabalho escravo e castigos físicos mesmo após a Abolição da Escravatura. E que se tornou famosa no país pelos maus tratos aos trabalhadores escravizados.

Mais de um século depois da Abolição, Barões do Café dão nome a nossas ruas, avenidas e bairros. Este é o contexto do inoportuno Story do Instagram. Estamos a apenas 15 dias do Dia da Consciência Negra.

A Política Cultural poderia ser um dos pilares para forjarmos uma nova sociabilidade nesses tempos difíceis onde o atual presidente da República dissemina o desrespeito com a vida. Mas para isto, seria necessário uma mudança radical de rumos.

Esse não é mais seu, oh, subiu
Entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu
Nóis é isso ou aquilo, o quê? Cê não dizia?
Seu filho quer ser preto, ah, que ironia

Cola o pôster do 2Pac aí, que tal? Que cê diz?
Sente o negro drama, vai, tenta ser feliz
Ei bacana, quem te fez tão bom assim?
O que cê deu, o que cê faz, o que cê fez por mim?

Negro Drama, Racionais MC’s

Quem me conhece pessoalmente sabe que comecei minha militância cantando Rap. Devo ao Rap o que sou hoje.

O rap não me deu um Porsche, mas me deu consciência crítica o suficiente para não passar vergonha espalhando preconceito racial ou de classe em redes sociais.

Se hoje sou funcionário concursado da Secretaria de Cultura e Turismo, é porque um dia o Rap me garantiu auto estima.

Por uma ironia do destino, a música que é ouvida no Porsche é do rapper novaiorquino Notorius BIG, homenageado recentemente pelo Brooklyn Nets. O Brooklyn Nets é uma equipe de basquetebol da NBA que possui como um de seus proprietários um “mano”, o Jay Z.

Sim, o rapper Jay Z, marido da Beyoncé. Segundo a Forbes, a fortuna dele é avaliada em 1,4 bilhões de dólares. Dá pra comprar alguns Porsches. E ele começou esta fortuna no Rap, como um “mano”. Cantando “música de mano”.

Acho importante apontar isto aqui porque, como todo preconceito, neste caso do Story há também desinformação.

De todo modo, para não ficar dúvida, estou entre aqueles que acreditam que o Rap é um instrumento de transformação da realidade para melhor e não apenas para afirmação de uma espécie de “status quo capitalista multicultural”.

Entre o Jay Z e a Alexandra Caprioli, fico com o fim da propriedade privada dos meios de produção e da mais-valia, em um mundo onde não haja exploração do trabalho alheio e não seja preciso revirar caçambas de lixo para comer.

Por Adriano Bueno Militante do MNU, do CONEPPA e do PT. Mestrando em Políticas Educacionais na Unicamp.

Publicado ooriginalmente em Medium.

Compartilhe

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on telegram
Telegram
Share on whatsapp
WhatsApp

Deixe um comentário