A organização setorial do PT, a democracia interna e a capilaridade da militância petista

Ao longo de 2021 o PT tem encaminhado duas iniciativas que mexeram com a democracia interna e a mobilização dos petistas: a renovação da organização setorial e a Nova Primavera. Ambas são fundamentais para o PT retomar uma democracia interna em que uma militância ativa participa da vida partidária e interfere nas decisões políticas do partido.

Por iniciativa da Direção Nacional a partir das secretarias nacionais de Formação e de Movimentos Populares a movimentação está intensa e a participação numericamente substantiva, ainda que os percentuais de participantes em relação ao número de filiados sejam relativamente baixos, mas concretamente a militância mesmo não é muito maior do que essa há praticamente duas décadas.

Defendo ambas as iniciativas, mas proponho uma reflexão que nos permita fazer uma crítica construtiva ao processo especialmente dos setoriais para que ele alcance cada vez mais seus objetivos.Antes, preciso registrar que considero o PED um erro para a democracia interna do PT desde sua proposição. O PT não pode se organizar com votações que acontecem apartadas dos debates políticos e organizativos e de maneira que apenas as pessoas organizadas em tendências, em geral nacionais e atreladas a mandatos, possam participar das direções. Também é péssimo que as votações aconteçam antes dos debates e os eleitos e as eleitas escutem muito pouco a base na condução das direções e nos posicionamentos. Pior ainda que agora ficamos com a pior parte dos dois mundos: os debates nos encontros municipais não são abertos a todos e todas filiados (as) e não permitem que militantes capazes e influentes possam estar nas direções municipais ou se eleger para os congressos estaduais e nacionais e tampouco podem eleger diretamente os (as) presidentes (as) estaduais e nacionais, que era o grande argumento da suposta democratização usado na época da implantação.

Então para aprofundarmos a democracia interna e o partido de massas militante temos que retomar os processos de encontros municipais abertos a todos e todas filiados (as), no qual ao final depois dos debates com todes que participem sejam eleitos (as) as mais representativas e capazes para encaminhar a linha política e organizativa debatidas nas direções e serem delegadas (os) ao congresso estadual que deva ter a mesma dinâmica e eleja delegadas (os) ao congresso nacional e direções. Sem essa mudança a democracia interna segue fragilizada.

As secretarias e setoriais são espaços de organização interna para a mobilização e debate de questões específicas ou organização de segmentos sociais. Segundo o chamado de 2017 no site do partido : “Os setoriais funcionam como ponte entre o PT, entidades e movimentos sociais. São espaços onde os militantes e os filiados podem se organizar por setores de atuação. Os setoriais e as secretarias setoriais ajudam o PT a ter acesso às demandas da sociedade, apresentadas pelos coletivos setoriais, que ajudam na elaboração de programas de governo e de projetos partidários. O fortalecimento dos setoriais reforça a participação do PT nas lutas e mobilizações sociais, atuando na transformação da sociedade.”. As secretarias ocupam lugar com voz e algumas com voto nas instâncias partidárias, como a Secretaria de Mulheres, e os demais setoriais se organizam como coordenações e coletivos setoriais ligadas à Secretaria de Movimentos Populares dialogam com as instâncias, pautando temas, causas, propondo mobilizações e posicionamentos para o conjunto do partido. Os setoriais tem um potencial enorme para contribuir no fortalecimento desse partido de massas militante e dirigente e, ao mesmo tempo, de aproximar um enorme contingente de simpatizantes a partir de debates específicos que permitem uma participação militante e um sentimento de pertencimento e comprometimento de pessoas que nem estão filiadas. No processo de 2021 tive notícias de mais de 25 Encontros Setoriais Nacionalmente, nem todos ainda formalizados, podendo haver mais algum.

Mas a condução da disputa nos setoriais não aconteceu dessa forma, [na grande maioria deles] apenas reproduziu as disputas pelo PED instrumentalizando a organização setorial como bem criticou Valter Pomar. O setorial não cumpre nenhuma dessas funções se é instrumentalizado pelas tendências na perspectiva de alterar ou reforçar determinadas correlações de forças presentes nas direções e congressos e secundarizam, ou mesmo abrem mão de fazer os debates sobre a proposição de formas de organização, de políticas públicas que possam se tornar bandeiras partidárias públicas, aprofundamentos de debates e condições específicas de segmentos sociais oprimidos e/ou marginalizados e que lutam por representatividade mesmo interna no PT e por aí vai.

Se um(a) recém filiado(a) ou um (a) simpatizante militante de alguma causa se aproxima de um setorial e não consegue compreender a dinâmica e diferenças políticas ou de concepção para as disputas e ainda se depara com disputas baixas ou percebe que a causa específica não aparece no debate, a construção setorial perde completamente o sentido. Se para além das forças representadas, as proposições dos setoriais e a representatividade requerida não são defendidas pelo conjunto das e dos participantes, a existência do setorial somente multiplica a dinâmica de disputa por cargos e controles de mandatos.Vi muitos encontros setoriais que se resumiram à apresentação das chapas, sem nenhuma discussão política sobre o tema/causa/segmento setorial, sem propostas específicas, sem formas de organização para que o partido atue de maneira mais adequada para que o partido melhore sua perspectiva em relação ao tema, às opressões que se reproduzem tanto na estrutura partidária quanto no comportamento dos dirigentes e militantes, alterar a representatividade, enfim, atuar como setorial e não como federação de chapas do PED sob um guarda-chuva de setorial e a serviço dos dirigentes e das correntes já estabelecidos.

Eu que fui militante da juventude e sou militante feminista, sindicalista, da educação, antirracistas, pela democratização da comunicação e tantas outras coisas, fiquei assustada em me deparar com setoriais que sequer tinham pauta nos encontros, nos quais os encontros foram meras formalidades vazias e os grupos de whatsapp dos setoriais e núcleos verdadeiros campos de batalha. Especialmente no setoriais de mulheres, juventude e, em menor medida, mais também presente, nos setoriais LGBTQI+ e de negros e negras vi disputas referenciadas nos dirigentes homens héteros brancos, de meia idade tradicionais que pautavam a dinâmica da disputa e a instrumentalizavam com as mulheres, os jovens, as LGBTQI+ e negres apenas reproduzindo busca por espaço da corrente A ou do grupo B.Aqui em Santa Catarina tem ficado cada vez mais explícito o quanto boa parte dos dirigentes desse tipo estão, por exemplo, construindo alianças eleitorais que terão apenas representantes do identitarismo do homem hétero branco letrado cristão e de meia idade e os setoriais não conseguem de maneira unificada cobrar que o partido precisa representar a população como um todo que é trabalhadora mulher e negra em sua maioria no Brasil.

Essa defesa não será feita pelo identitários referidos, terá que ser feita pelas mulheres, pelas não brancas, pelas não cristãs, pelas não héteros, pelas jovens ou idosas de maneira unitária para que o partido pare de reproduzir interna e externamente o racismo, a misoginia, o etarismo, o capacitismo e a lgbtfobia estruturais em nosso país. E as pessoas simpatizantes que se aproximam não se sentirão representadas. As mobilizações tem demonstrado que o enfrentamento ao governo Bolsonaro passa pela mobilização dessas militâncias e essas tem tido cada vez mais impacto eleitoral, inclusive aqui. Os fascistas não irão votar na gente de nenhuma forma e estamos perdendo a representatividade e os votos de esquerda e dos segmentos organizados por não conseguirmos enxergar a realidade e perdemos também os votos dos setores sociais que poderiam ser conquistados pelo nosso debate, pra nossas pautas da classe, da raça, do gênero, etária e da diversidade sexual e de corpas (pessoas com deficiência, pessoas gordas, pessoas trans…).

A esquerda em Santa Catarina tem diminuído de maneira consistente há décadas, tanto na militância, na organização e isso se expressa de maneira gritante eleitoralmente. Tentar se mostrar cada vez mais de centro e mais conservador, escondendo debates cruciais embaixo do tapete tem se mostrado ineficaz mesmo do ponto de vista mais pragmático eleitoral, além de ser um erro histórico.Nacionalmente o PT tentou recuar nos debates sobre legalização do aborto e das drogas, nos debates sobre os direitos LGBTQI+, nos debates antirracistas para tentar manter o que é chamado por alguns de “pautas prioritárias” como a política de enfrentamento à fome, de valorização do salário mínimo, a luta contra privatizações e contra as reformas trabalhistas e da previdência. A estratégia falhou miseravelmente, mesmo recolhendo o material de formação de professores sobre diversidade sexual sofremos o golpe, mesmo não enfrentando o tema da legalização do aborto e das drogas Bolsonaro se elegeu nos chamando de aborteiros, drogados, pervertidos, mentindo sobre kit gay e mamadeira de piroca, afirmando que somos contra a família e inimigos dos cristãos (logo o PT, partido de predominância absoluta de cristãos e com organizações cristãs sendo um dos pés das 3 estruturas que formaram o partido nas CEBs) e com a vitória do golpe e os governos Temer e Bolsonaro perdemos o Bolsa Família, o salário mínimo, as deformas foram aprovadas e tudo o mais que fazia parte da tal suposta “pauta prioritária” foi perdido ou está em vias de ser.Não será possível vencer as eleições tentando dissimular o que somos e os setoriais podem ter papel fundamental se a disputa for superada por um processo de construção, em que os debates sejam mobilizadores, que reúnam filiados (as) e simpatizantes, que os debates construtivos sejam levados a mudanças no partido, na sua organização interna, em como as pautas da democratização e da defesa da vida sejam encaradas pelas direções, na construção das candidaturas e dos programas e na intervenção social do partido no período eleitoral e fora dele. Mas a reprodução das disputas estéreis de correntes, chapas e mandatos e o fechamento das direções para escutar e incorporar as pautas e elaborações dos setoriais impedirão a realização desse potencial.No caso dos setoriais de pautas específicas, como educação, saúde, transporte, comunicação, ambiental, defesa dos animais, entre muitos outros precisam ter participação ativa nas construções de pautas para a sociedade em períodos não eleitorais e eleitorais, enfrentando as políticas de destruição que atingem cada setor, propondo projetos e pautando a sociedade como se posicionar sobre temas e pautas relacionadas e mobilizando a partir do setorial em conjunto com movimentos sociais para pressão social nas ruas, nas redes, nos parlamentos e governos.Já eleitoralmente tem que ser seriamente ouvidas na produção dos programas de governo e de mandatos e na construção de candidaturas que possam dialogar setorialmente com segmentos sociais que se mobilizam por essas pautas. Especificamente na questão ambiental temos sido particularmente ineficazes nessa construção. As pessoas que militam nesses setoriais e nesses movimentos precisam se ver representados nos programas e na comunicação do partido, seja na comunicação institucional, seja nas campanhas eleitorais. Novamente caso isso não seja feito todo o potencial mobilizador e aglutinador será perdido e cairemos em campanhas eleitorais tradicionais que podem ter funcionado em 2010 e 2012, mas certamente serão ineficazes nesta conjuntura.Em ambos os temas Lula é um exemplo a ser seguido: ele se reúne com dirigentes e lideranças partidárias formais, mas também se reúne, ouve e incorpora demandas de segmentos sociais oprimidos, movimentos sociais e militantes das mais diversas causas. Ressalto que em cada reunião Lula se comporta de maneira muito diversa da grande maioria das nossas lideranças – novamente esse recado se dirige mais, ainda que não exclusivamente, aos dirigentes tradicionais e mandatários, especialmente os homens hétero branco letrados cristãos e de meia idade. Ele agenda reuniões com públicos diversos, se senta e sem quase se distrair ouve atentamente a colocação de cada liderança, sempre deixa para falar ao final, a partir desse contato faz sínteses e passa a incorporar nos debates as pautas e as questões levantadas, procura estudar sobre os temas e tomar atitudes relacionadas e se posicionar publicamente.Infelizmente a maioria dos nossos dirigentes costuma pedir pra falar primeiro, faz falas longas, fala de si mesmo e se auto exalta, no tempo em que está no evento mexe no celular ou conversa com iguais e sai sem ouvir ninguém, muito menos procurando se sensibilizar pelas questões colocadas e com alguma frequência ignorando ou desprezando as pautas e propostas colocadas.Cometamos erros novos: temos uma oportunidade ímpar de avançar!! O Partido das Trabalhadoras e dos Trabalhadores é uma força fundamental para todo o povo brasileiro e para o mundo nesse momento histórico de enfrentamento ao fascismo internacionalmente. Sempre foi o partido que deu as maiores contribuições e provavelmente o partido de maior democracia interna da história do Brasil. Nada disso está sendo negado aqui, pelo contrário. Para reafirmar, aprofundar e sermos ainda melhores e ainda mais capazes de enfrentar os desafios e contribuir para um Brasil com cada vez menos desigualdade, exploração e opressão temos que ser cada vez melhores e esse é um compromisso de cada brasileira e de cada brasileiro, mas é um dever dos filiados (as), dos (das) militantes e uma responsabilidade inalienável de cada militante profissionalizado (a), liderança, dirigente, parlamentar e governante do nosso partido em todo o Brasil e um exercício de colocar os interesses do país acima cada vez mais de projetos de tendências, pessoais e vaidades. Lembrando que ao não agir de acordo com essas concepções colocamos tudo em risco e por ter agido assim já perdemos muito e não temos o direito de cometer determinados erros históricos novamente.

Partido, Partido é das trabalhadoras!!

Partido, Partido é dos Trabalhadores!!

Por Elenira Vilela/ Primavera de 2021

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Este post tem 3 comentários

  1. Sugestão

    Prezada autora, seria interessante reconsiderar a predominância das especificidades do seu texto. Tem muita gente que vê no Partido dos Trabalhadores uma potência de geração de empregos e movimentação produtiva da economia. Isso não é pouca coisa. A gente sai de casa e se depara com calamidade pública da fome, calamidade pública do trânsito caótico e inseguro, calamidade pública da falta de educação, calamidade pública do fechamento do comércio, calamidade pública da falta de indústria, calamidade pública da falta de transporte público, calamidade pública da falta de saúde, calamidade pública da falta de oportunidades. A pessoa que não tem um pé é tão importante quanto um azul, um bege, um branco, um preto, um amarelo, ou um rosa. A pessoa que não consegue ler é tão importante quanto um índio tupi, um índio quechua, um quilombola, uma feminsta, um lgbt, um enfermeiro, uma cuidadora, uma professora. Então por favor, chega a ser uma agressão achar que o PT é pra feminista e LGBT. A gente quer é emprego! Buscamos todos os dias: EMPREGO E PODER DE COMPRA, pois estamos sem NENHUM!! NENHUM!!! Se melhorar para quem não tem pé, não tem braço, melhora também para quem é professora, quem é lgbt, quem é padeiro, quem é feminista, quem é ribeirinho, quem é retirante: MELHORA PARA TODO MUNDO. Queremos melhoras de emprego e qualidade de vida: PARA TODOS OS BRASILEIROS. Não é só para quatro grupinhos não. Chega de grupinho. Partido dos Trabalhadores não é só do ‘grupinho’ não, nunca foi. Partido dos Trabalhadores: é para os brasileiros!

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