A turma que demitiu coronel do Exército diretor de escola agrícola federal na ditadura militar

A nossa turma ficou conhecida como a que demitiu o coronel do Exército que estava diretor da escola.

A primeira ordem que ele deu, em 1978, quando assumiu a direção da EMAF (Escola Média de Agricultura de Florestal, integrante da Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais), foi de construir uma guarita, para controlar entradas e saídas na área dos prédios das salas de aulas e alojamento. Coronel da reserva, o militar passou a mandar em professores(as) e alunos(as) dos cursos técnicos agropecuário e florestal da tradicional escola, por decisão do general Geisel, então presidente da República – na época, todas as escolas técnicas federais receberam oficiais da reserva como diretores. Coincidência ou não, o nosso era da Cavalaria. 

Havia muita ebulição no meio militar no início de 1978, por três fatos políticos decisivos: a disputa pela indicação do sucessor do presidente da república – com o general paraquedista Hugo Abreu em campanha aberta contra Figueiredo, do Serviço Nacional de Informações (SNI), tido como o preferido de Geisel –; os desdobramentos do golpe frustrado, do ministro do Exército, o general de extrema-direita Sylvio Frota, em outubro de 1977, e da sua demissão sumária (e dos seus aliados também) e substituição pelo general Fernando Bethlem; e os impactos do “Pacote de Abril” (em 1977) na disputa eleitoral daquele ano. 

Mais dois fatos, ocorridos em 1977, incomodavam os militares: a criação dos comitês estaduais e nacional pela anistia dos presos políticos, e a retomada do movimento estudantil, expressa no Encontro Nacional (III ENE), em Belo Horizonte, com Aureliano Chaves, então governador de Minas Gerais, comandando pessoalmente os soldados da cavalaria da PM, com seus sabres, cacetetes de madeira e cavalos agredindo estudantes nas ruas e praças da capital mineira. 

Obrigado a me afastar do curso na EMAF em 1978, para prestar o serviço militar obrigatório, em Belo Horizonte, não convivi com o coronel diretor naquele ano. Conheci seu “modus operandi” somente no ano seguinte, quando dei baixa e voltei para a escola, para terminar o curso. Graças às mudanças políticas ocorridas em 1979 (lei da Anistia, libertação de presos políticos e o retorno de muitas lideranças que estavam exiladas), alguns colegas se animaram a reagir contra as arbitrariedades do diretor, iniciando um movimento pela sua demissão. 

Quando a gente dizia que que o nosso objetivo era demitir o diretor, porque ele não era professor, nem tinha nada a ver com agropecuária ou silvicultura, a turma reagia com ceticismo: isso não é possível, não vão demitir o diretor. Insistimos que sim, que era possível demitir o coronel, desde que tivéssemos algo forte contrário – venceu a proposta de não aceitarmos formatura com ele. 

Conseguimos divulgar as nossas queixas em entrevista na TV estadual. Alguns dias depois, bateu a repressão: apesar de não ser da direção do grêmio, fui chamado para reunião à noite na casa de um ex-diretor da escola, com a participação de dois representantes da Universidade de Viçosa (UFV), o pró-reitor de alguma coisa e o chefe do escritório do SNI na UFV. O sujeito do SNI ameaçou me entregar para o DOPS, no impasse demissão versus formatura, por acreditar que acenando com a possibilidade de prisão e tortura conseguiria a nossa desistência. Como a ameaça talvez fosse latido grosso de cachorro velho, pagamos para ver (mesmo com medo). 

A nossa reivindicação era a demissão do diretor. Ou ele era demitido, ou não haveria formatura. 

Sim, a formatura era importante para os(as) estudantes, mas muito mais para os seus familiares, muitos deles pessoas humildes dos interiores do estado, que queriam assistir seu filho ou filha recebendo o “canudo” do curso importante de uma escola famosa. Por isso, só houve acordo de todos juntos peitarmos a reitoria da UFV, graças a uma solução tipicamente “mineira”: formatura informal – fizemos a “nossa” no salão da igreja, dia 8 de dezembro de 1979, sem dirigentes da EMAF e da UFV, e com parentes, professoras(es), funcionários etc. Tudo igual a uma formatura – exceto pelo fato de que legalmente ninguém estava se formando –: discurso de orador, várias homenagens, e direito de cada um e cada uma a ser chamado(a) ao palco e receber um envelope grande (com uma foto 20×25 da turma), como se fosse o diploma.

Foi a primeira vez que não ocorreu uma formatura, em 40 anos de história da EMAF. Deve ter sido também a única vez. Por isso, a nossa turma ficou conhecida como a que demitiu o coronel do Exército que estava diretor da escola, porque realmente ele foi demitido logo depois – só não o fizeram a tempo da formatura, para não admitir que cederam à nossa reivindicação.

Trazer esses fatos tanto tempo depois, no início do ano eleitoral, ajuda a lembrar a necessidade de demissão de milhares de cargos de confiança, servidores públicos federais que são oficiais da ativa das três armas, nomeados pelo atual desgoverno federal. Militares que certamente estão fazendo falta em suas unidades de origem, e o retorno deles às suas funções será importante para o País começar a refazer tudo o que foi – e ainda está sendo – sistematicamente destruído no Brasil, das políticas públicas para preservação ambiental e das populações indígenas, às de desenvolvimento econômico (reindustrialização, geração de emprego e renda e redução das desigualdades sociais); culturais; de infraestrutura de energia, transportes e telecomunicações; de ciência, tecnologia e inovação; saúde; atendimento de pessoas idosas; segurança cidadã; e todas as outras destroçadas nos últimos seis longos anos. 

Por Milton Pomar – geógrafo e mestre em Políticas Públicas

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